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Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

O tesouro dos sentidos

 

 

Que peso tem um bocado?

Mamã, sabes-me dizer?

E um triz, quanto é que mede?

Alguém me faz entender?

 

Quem é que é o destino?

Porque tem tanto poder?

Um ápice é quanto tempo?

Isso queria eu saber!

 

E isso de me pôr fino?

Não fica magro quem quer!
Como é que se dá o litro?

É num frasco ou à colher?

 

Como é que tenho sete olhos

se só dois consigo ver?

Camisas de sete varas?

Não consigo compreender!

 

Se me falta um parafuso?

Não me lembro de o perder…

Tenho a cabeça na lua?

Que me dera a mim poder!

 

E os bichos-carpinteiros

quem é que dá de comer?

Como é que um alho é esperto?

Lá isso não pode ser!

 

Eu acho que há expressões

que são casarões antigos

que escondem nos alçapões

o tesouro dos sentidos.

 

Autor: José Guedes

 

publicado por Diário de Diana às 20:02
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Coisas deste livro

Moderno e confortável

Só mesmo aquele avião.
Mas é mais recomendável
Que eu fique aqui no chão.
 
De barco é que é navegar,
Mas muito maior é a demora;
Se não me ponho a enjoar,
Mando-me pela borda fora.
 
De carro é que é bonito
(Nem a nadar, nem a voo).
Se eu vou lá atrás, vomito;
Se vou ao volante, enjoo.                                       
 
Autora: Sousa Rutra
 
publicado por Diário de Diana às 20:01
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No comboio descendente

No comboio descendente

Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada –
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada…
 
No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela –
No comboio descendente
Da cruz quebrada a Palmela.
 
No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não –
No comboio descendente
De Palmela a Portimão.
 
Autor: Fernando Pessoa
publicado por Diário de Diana às 19:59
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Poema

 

Não quero as oferendas
Com que fingis, sinceras,
Dar-me os dons que me dais.
Dais-me o que perderei,
Chorando, duas vezes,
Por vosso e meu, perdido.
 
Antes me prometais
Sem mo dardes, que a perda
Será mais na esperança
Que na recordação.
 
Não terei mais desgostos.
Que o continuo da vida.
Vendo que com os dias
Tarda o que espera, e é nada
 
Não canto a noite porque no meu canto
O sol que canto acabará em noite.
Não ignoro o que esqueço
Canto por esquecê-lo
 
Pudesse eu suspender, ainda que em sonho,
O Apolíneo curso, e conhecer-me,
Ainda que louco, gémeo
De uma hora imperecível!
 
Não quero recordar nem reconhecer-me
Somos de mais se olhamos em quem somos.
Ignorar que vivemos
Cumpre bastante a vida.
 
Tanto quanto vivemos, vive a hora
Em que vivemos, igualmente morta
Quando passa connosco,
Que passamos com ela.
 
 
 
Se sabê-lo não serve de sabê-lo
(Pois sem poder que vale conhecermos?)
Melhor vida é a vida
Que dura sem medida.
 
publicado por Diário de Diana às 19:57
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Liberdade

 1º-

Todos somos escravos
Só o sonho
Nos pode libertar das guerras do mundo.
Sonho que um dia tudo pode
Ser diferente –
Das guerras construir paz
Do odeio amor
Da angústia esperança…
E um dia os pobres
E os ricos sentar-se-ão
À mesma mesa…
Um dia o meu livro
Será o teu
Um dia seremos todos diferentes
Acreditando que é tudo
Diferente que somos humanos livres

 

 

2º-
O mundo é feito de guerras
Mas o sonho pode libertar
O mundo delas.
Sonho que um dia tudo irá mudar -
As guerras irão acabar
O ódio vai desaparecer
Um dia os ricos e os pobres
Não vão ser distinguidos
Um dia seremos todos diferentes
Acreditando que somos humanos livres
 
publicado por Diário de Diana às 19:44
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